Os Andarilhos (Parábola)
Os Andarilhos (Parábola)
“Sansão, dá um tapa na careca”, gritava um dos moleques da turma. O pobre homem se virava vagarosamente atiçando os pavilhões na tentativa de identificar a direção da ordem. Isso feito, descia da corcunda o saco de estopa cheio dos trem que ia catando pela vida, abria um sorriso cariado e subtraído pelos doces e amargos dos homens, levantava o pequeno chapéu de feltro puído na ponta pelo roçar insistente dos três dedos que sempre o ofereciam como reverência, e, como um chimpanzé, dava um sonoro tapa onde outrora houvera cabelos fartos. Ninguém sabia sua idade, mas com certeza era bastante velho, pois sempre estivera andando – arrastava uma das pernas – pelas ruas daquela pequena cidade encravada no norte e, gerações e gerações de moleques magros e bochudos, fazedores de pipas, peladeiros de bola de meia, ladrões de goiabas – e às vezes de galinhas –, engraxates, construtores de estilingues inigualáveis, e outros atributos de maior ou menor importância, gritaram e gritavam: “Sansão, dá um tapa na careca”. Não falava, e nunca se soube ou se pode afirmar que tenha feito mal a alguém; apenas obedecia à ordem… o Sansão.
A outra personagem que habita a história é uma mulher andarilha, não contemplada pela vida e também perseguida pela gurizada. É possível que, assim como Sansão, fosse muito velha. Andava sempre com um saco nas costas cujo conteúdo era um mistério e ao mesmo tempo – pelo obvio – objeto de desejo para os meninos da rua que sempre viam frustradas suas tentativas de surrupiá-lo, pois a mulher era esperta como o ‘coisa ruim’. Sua tez era preta como o pensamento de certas pessoas, não tinha um metro e cinqüenta, e o bócio lhe fizera saltar das órbitas um par de olhos vesgos que pareciam mirar sempre para cima, pois sofria, a coitada, de uma espécie de torcicolo crônico que grudava seu queixo à escápula e a fazia uma dessas criaturas torcidas pelo passar dos anos: isso, junto a uma imensa cabeleira negra e encaracolada dava-lhe, à vista da molecada – e da maioria dos adultos – um ar assustador. Maria Cuberta lhe chamavam, e dizia-se que quando pegava um garoto, esse jamais era visto novamente – alguns chegavam mesmo a afirmar que o contido do saco era um menino. Diziam que era uma bruxa, e que praticava rituais sangrentos com as crianças que conseguia apanhar. Não sorria jamais, apenas, quando a pequena gangue lhe atirava pedras a seguir-lhe pelas ruas gritando: “Mija Maria Cuberta, mija Maria… mija… mija…”, virava de repente na direção do bando, levantava a saia feita de andrajos costurados com restos de baixeiros suarentos e, com movimentos rítmicos do quadril a contrair as nádegas, esguichava jatos e jatos de um mijo muito amarelo e mal cheiroso. Isso fazia com que estivesse sempre sendo seguida por uma pequena matilha de cães vagabundos e sarnentos que acabaram por se lhe afeiçoarem… e ela a eles.
Quis, porém, o torto da vida, que Sansão e Maria Cuberta se encontrassem num belo dia de outono. No princípio os cães ficaram desconfiados do pobre homem, mas quando esse lhes ofereceu o afago amigo terminaram abruptamente as animosidades. A afinidade foi instantânea entre os dois seres, e seguiram, dali por diante, sempre juntos, seus caminhos tão conformes e disformes.
Moleques se adaptam com facilidade espantosa às mais incríveis situações, e, no caso, não poderia ter sido diferente. Usando de toda perspicácia maquiavélica típica da idade, passaram, os guris, ao seguinte refrão: “Maria Cuberta, mija na careca do Sansão… mija… mija na careca do…”.
A princípio Sansão ficou desorientado, pois gostava de tirar o chapéu quando os miúdos mandavam. Sentia até mesmo uma certa ternura pelos pequenos, mas agora?, agora aquela algaravia lhe sabia um pouco a falta de respeito para com a companheira, que não fazia beiços ao arrancar pedregulhos do calçamento antigo para atirar nos garotos, atiçando-lhes encima os cachorros.
Contam que, certa vez, meio a uma destas pequenas escaramuças, Sansão viu cair do saco da velha feiticeira uma carteira cheia de documentos amarelados. Pegou-a. Abriu e leu – aprendera a ler num passado muito remoto. Dalila dos Santos Pereira… Dalila era o nome da companheira. Desse dia em diante, como que por milagre, seus cabelos começaram a crescer novamente e uma força interior tomou-lhe conta das tripas. Foram muito felizes, tiveram muitos filhos, uns Sansões, outras Dalilas, que se espalharam por toda a região, e depois por todo o país. E são andarilhos, todos com sacos nas costas e com um bando de moleques a seguir-lhes os passos a gritarem os mesmos desaforos. “Sansão, dá um tapa na careca”. Mija Maria Cuberta… mija… mija… mija na careca do…
José Paulo de Paula e Silva

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