Mentiras e Mentiras
Lembro-me de ter lido certa vez não sei onde os resultados de uma pesquisa, dessas inúteis que invariavelmente são feitas na Inglaterra por algum peagadê entediado, que afirmavam que todos os seres humanos mentem. Pior do que isso, mentem várias vezes ao dia, se não para os outros, para si mesmos. Em sua grande maioria são mentirinhas sem quaisquer importâncias, completamente inofensivas, mas, vez que outra… Há, no entanto, segmentos da sociedade que deveriam não mentir, ou mentir um pouco menos, talvez devido ao constrangimento que isso poderia vir causar.
Um desses segmentos englobaria pregadores, padres, pastores e religiosos; desde simples praticantes até os obcecados pela coisa. Tais autoridades não deveriam poder faltar com as verdades, afinal de contas levam às almas necessitadas a boa palavra de Deus. Trabalham com a fé que existe dentro das pessoas, e a fé é um sentimento que parece ser legítimo. Mas, são seres humanos! Todos! Católicos, muçulmanos, protestantes, testemunhas de Jeová, universais de reinos diversos, evangélicos, adoradores da terceira lua de Júpiter e… segue aqui uma enorme lista. E seres humanos, de acordo com a pesquisa, mentem… Todos.
Legisladores, praticantes ou obcecados pela coisa, não deveriam, em hipótese alguma, mentir, afinal de contas têm que cuidar das invencionices legais para que, de maneira coerente, reparta-se o pão de forma razoável, não deixando que os executivos e seus comparsas – grandes mentirosos de maneira geral – surrupiem a melhor parte. Mas são seres humanos também. Todos! Deputados federais, senadores, deputados estaduais e vereadores. E seres humanos mentem. Todos… de acordo com a pesquisa, é claro!
Agora, poderíamos tentar imaginar um ser que, suposto humano, fosse imune à compulsão de contar mentiras. Um vereador, por exemplo, que ao mesmo tempo fosse um beato – praticante ou obcecado, tanto faz. Um invocador incorrigível das peripécias divinas e legislador crônico e contumaz. O que se esperaria é que, por agregar características de duas categorias sociais tão formadoras de opinião e pela importância da coisa em si, como já dito acima, tal personagem deveria ter menor probabilidade de ser um vulgar mitômano – a lógica do raciocínio é razoável, mas discutível. Não deveria, portanto, em hipótese alguma e sob pena de ir para o inferno, mentir. Mas, em se tratando de um ser humano, de acordo com a pesquisa do Reino Unido é claro, possivelmente o rezador/legislador pregasse uma ou outra mentirinha… Sei lá, pra catequizar mais uma alma em vias de perdição, defender um prefeito amigo, captar mais alguns votinhos. A menos, é claro, que a suposição não estivesse correta, aí ele não se encaixaria no universo de amostragem da pesquisa, mas isso já é uma ouuuuuutra estória.
By appointment to your majesty.
Ps: Considere a possibilidade desta reflexão ser apenas uma mentirinha.
José Paulo de Paula e Silva

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